“Te guardei onde ninguém vai tirar.
“Sem poder conversar com você o dia termina cedo. Vou dormir, pois não tenho motivos pra ficar acordado.
“Moro na casa da desconfiança e outra vez o meu pé recua. Conheço a felicidade que se instala, a que finge, a que vai e a que destrói: de todos os tipo, entendo. Não quero mais essa casa, apesar de saber das providenciais seguranças que ela me traz. Joguem-me logo aos leões, ao mundo lá fora… Joguem-me para termos certeza de uma coisa: a minha fragilidade é uma piada. Tanto medo, silêncio, olhos atentos e movimentos rápidos são frutos dessa desconfiança, um arrepio que dá quando a vida fala mais alto do que a minha melancolia. Soa trágico não saber viver, mas paremos de recato, a vida é mesmo difícil demais para qualquer um de nós, o que fazemos é aceitar, isso que chamam de viver é mentira, mentira! Eu desconfio, quem sabe assim eu caia em menos covas, corte-me em menos cacos de vidro e arrebente menos o rosto nas portas que até ontem estavam abertas. E os braços, então? Dia desses amanheci com a camisa cheia de sangue nas costas, sabe-se lá quem deu a facada. E desconfiar nem sempre me salva.
Pois bem, é quase meia-noite. Veja só, quando as badaladas anunciarem-se, não serão os lobisomens ou almas que sairão andando pela cidade. Dessa vez quem dará as caras, novamente, é a minha desconfiança, que, antes adormecida, vem agora para me avisar que cautela demais é pouca, que olhos abertos ainda é estar dormindo: esperto mesmo é quem não dorme! Mas eu… ah, eu sou pouco resistente - ao sono, à vida, aos outros. Eu não passo de duas ou três noites em claro. A vida me cambaleia e eu adormeço como anestésico.
Voltemos ao assunto primário: a desconfiança. Olha, eu não sou sempre essa tristeza. Minto, sou quase sempre, mas é uma tristeza boa de se ver: acordo alisando meu próprio cabelo para sentir carinho, levanto com palavras de apoio da minha mente e vou, sem rumo parto ao dia. Após, o dia me parte. Partida, vou e sou. O quê sou? O que precisar ser. Melhor: o que a desconfiança mandar ser.
Interessante todo esse meu discurso. Pareço um cofre solitário sem abertura, entretanto, a única verdade é que o mundo me toma demais sem saber das consequências e preciso usar e abusar do meu teatro de proteção, da minha desconfiança de quem muito chora atrás dos próprios olhos. A verdade é que canso de me ajudar após cada bofetada. Vida, vida… Se não me amas, por que me chamas? Ah, que coisa ridícula, nem sou tão forte assim como as palavras me mascaram! A verdade mais feia está aqui: sou tão, mas tão pequena, que os sorrisos nem me acham.
É que a vida quis me sorrir tanto nos últimos dias que deu nisso… Eu desconfiei.
“Não adianta, não sei explicar. As palavras traem o que a gente sente.